A que horas o papa ataca? (livro de Christiano Rocha)
CHRISTIANO ROCHA
São Paulo - SP
Financiamento ColetivoLivroMúsica
R$ 13.780,00 da meta de R$ 12.000,00
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Depois do CD Ritmismo, o DVD Um par de baquetas e uma câmera em Barcelona e os livros didáticos Bateria Brasileira, Play! e Play 2, chegou a vez de lançar um livro com histórias, A que horas o papa ataca?, voltado a apreciadores de música, músicos ou não.

Apresento no livro 116 crônicas do meio musical brasileiro passadas entre a Segunda Guerra Mundial e a pandemia de Covid-19. Três delas foram escritas por Derico Sciotti, que também assina o prefácio; uma por Guttemberg Guarabyra, uma por Pascoal Meirelles e outra pelo maestro Amilson Godoy — um precioso relato da época em que trabalhou com Elis Regina.

Por vezes absurdas e tragicômicas, as histórias são protagonizadas por músicos desconhecidos do grande público e também por artistas habitués das páginas de biografias e jornais — de Tim a Tom.

A que horas o papa ataca? também traz um divertido glossário com termos do meio musical, a começar pelo verbo “atacar”, que dará sentido ao enigmático título do livro, tirado de uma história vivida por Chico Batera envolvendo duas sumidades em suas áreas: o papa e Djavan.

O livro traz belíssimas ilustrações da artista plástica Claudia Azevedo; conta com projeto gráfico de Luiz Zonzini e uma capa assinada por Benjamim Cafalli.

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Separei alguns trechos do livro, lembrando que são 116 histórias no total, além do glossário ("musiquês").

 

Introdução

É comum uma atividade profissional ter um vocabulário próprio, pouco ou nada inteligível para quem não é do meio — vide o pessoal do mar. Um marinheiro nunca dirá “para a frente, um pouquinho à direita e pé na tábua, moçada!”.

Por sua vez, um músico trocará o “há males que vêm para o bem” por “há Miles que vem para Davis”.

A peculiaridade no dialeto dos músicos ficou muito clara quando, anos atrás, escutei na secretária eletrônica o recado de um grande amigo e músico, o baixista e produtor Cláudio Machado, justificando sua ausência em uma festa de aniversário que acontecia em minha casa.

Ao término de sua peculiar mensagem, em alto e não muito bom som, notei na sala uma expressão de surpresa e curiosidade das pessoas que não viviam de música. Tive de traduzir o enigma.

“Véio, vou mandar o Lima na festa.
Pintou sub pro Carlão e só tá dando jazz.
Pico longe, equipo Migué, dono da gig bico e um percussa engessado.
Era pra atacar às dez, mas o canário tá atrasado e nem veio passar o som. A bagaça vai começar tarde e pelo visto vai rolar família madeira.
De quebra, o faz-me rir só sai daqui quinze dias.
Roubada
da capo al fine, Xis!” 

Vamos à tradução para o português:

“Meu caro amigo, não poderei comparecer à sua festa.
Estou substituindo o meu colega Carlos e as coisas estão um tanto complicadas.
O local do trabalho é deveras longe, o equipamento de som inapropriado, o líder do conjunto musical não é competente e o percussionista apresenta problemas no quesito balanço.
A apresentação musical teria início às 22h, porém o cantor está atrasado e tampouco veio testar o equipamento de sonorização do local. O labor será realizado num horário tardio e aparentemente com pouco público.
De quebra, a remuneração será efetuada somente daqui a 15 dias.

Insalubridade do começo ao fim, Christiano!”

         O vasto e curioso vocabulário dos músicos reflete uma visão de mundo bem-humorada e perspicaz, além de um raciocínio extremamente rápido, afinal, não dá tempo de pensar durante um improviso numa música. Não é por menos que coloquei um glossário no final do livro. 

Muitas das histórias que envolvem a classe musical são formidáveis e dignas de nota. Alguns livros e biografias passam uma imagem exagerada dos músicos, por vezes fantasiosa. O fato é que ninguém domina um instrumento musical da noite para o dia, muito menos bêbado, drogado e em meio a um bacanal.

 

Lembrei de vovô

Nos anos 1980, minha ex-sogra, a cantora Silvia Maria, fez uma temporada pelo Sul do Brasil com o Baden Powell. Um dos espetáculos foi num teatro em Florianópolis. No repertório tinha a música “Rosa”, do Pixinguinha, que a Silvia cantou a vida toda. Só que na hora de interpretar a canção, ela esqueceu a letra.

Sem perder a pose, Silvia Maria pôs as mãos no rosto e simulou um choro. O Baden se aproximou dela e perguntou:

— Silvinha, o que foi?

— Baden, eu tô muito emocionada.

E o público atento a tudo.

A Silvia prosseguiu:

— Meu avô era violoncelista e tocava essa música para minha avó...

Emocionado — só que de verdade —, o público foi à loucura e ovacionou a cantora. Logo a seguir, a letra voltou do limbo, Silvia cantou e livrou a cara. A plateia foi ao delírio.

A partir desse dia, qualquer tropeço que rolava na temporada já acionava o mote “lembrei de vovô”.

 

I see dead people

Um personagem que vai aparecer muito por aqui é o Cláudio Machado, o baixista que deixou aquela mensagem cifrada na minha secretária eletrônica, um sujeito ímpar e idiossincrático, que já foi atacado por um besouro, vomitou e chorou numa sessão de shiatsu, ficou bêbado comendo fondue, comprou um carro zero que veio enferrujado da fábrica. Tocamos juntos desde 1988 e ele é um dos caras mais talentosos e engraçados que conheço. Irmão de escolha que eu amo do fundo do meu coração.

A primeira vez que o vi foi numa reunião da banda Miragem, onde também conheci o querido Derico Sciotti. Do nada, o Cláudio golfou. Expeliu um líquido alienígena, se limpou e disse:

— Foi mal, continuem.

Nas viagens, sempre dividimos o quarto. Uma vez, depois de falar para ele um “duvido”, eu o deixei pelado do lado de fora do quarto. Ele esmurrava e encoxava a porta enquanto duas senhoras se aproximavam.

Nossa primeira viagem foi com a banda do Derico, para Campinas.

Depois do show, já na hora de dormir, o Cláudio disse:

— Chris? Já dormiu?

— Não.

— Preciso te falar uma coisa.

— O quê?

— Eu vejo espíritos.

— Hã?

— Eu tenho mediunidade apurada. Vejo espíritos e algumas coisas estranhas.

— Ah, velho...

— Sério, inclusive tem um cara aí do seu lado. Mas não precisa se preocupar.

Liguei a TV e o Claudião foi cumprir o terço escuro de sua vida. A roncar, evidentemente.

Não preguei os olhos naquela noite.

No dia seguinte, rindo e cuspindo o ovo mexido do café da manhã, o Claudião me falou que não tinha mediunidade alguma e que (também) morria de medo de fantasma.

Tempos depois, ele pagou pelo que fez.

 

Carabiniere terraplanista

           Em 1992, o pianista Emílio Mendonça foi tocar na Sardenha com um grupo de música brasileira.

          Iniciariam os trabalhos no festival Jazz in Sardegna e fariam alguns shows ao longo de duas semanas. Acabaram ficando por três meses, devido à excelente receptividade do público sardo.

          A banda estava instalada numa casa um tanto afastada da civilização. Eventualmente, depois de algum show, o Emílio e o Bira, baixista do grupo, iam no meio da madrugada telefonar para o Brasil, pois a casa não tinha telefone e a diferença de fuso horário permitia.

          Eles caminhavam 40 minutos por uma estrada de terra até chegar a uma autoestrada. Como tinha muito cachorro no caminho, os dois músicos andavam munidos de dois pedaços de pau, para espantar — sem violência — possíveis agressores caninos.

          Em uma dessas caminhadas passou uma viatura por eles. Eram carabinieri.

          Os policiais não pararam, mesmo passando por dois homens portando armas rudimentares, caminhando às 3h da manhã no meio do nada e que, definitivamente, eram forasteiros, na verdade uma versão abrasileirada da dupla Gene Wilder e Richard Pryor.

          A viatura parou mais à frente, deu meia-volta e interceptou os dois andarilhos com luzes, sirenes e armas.

          O Emílio e o Bira soltaram os pedaços de pau e foram interrogados por um dos carabinieri, que portava uma metralhadora.

          — Quem são vocês e o que fazem aqui a esta hora, com dois pedaços de pau?

          — Somos músicos brasileiros. Pegamos esses paus para não sermos atacados pelos cachorros. Estamos indo até uma cabine na autoestrada para ligarmos para nossas casas no Brasil, com este cartão telefônico.

          — Como assim? A esta hora?

          — Sim. O Brasil está cinco horas atrás. Se aqui são 3h da manhã, lá são 22h.

          — Como assim???

          O Emílio tentou explicar que a Terra é redonda. Caprichou nos gestos.

          Nada convencido, o carabiniere gritou:

          — Não estou entendendo o que você está falando!

          O outro carabiniere, um pouco mais esclarecido, bateu no ombro de seu colega e disse:

          — Acho que é verdade o que ele falou. Vi isso em algum lugar.

          Finalmente, os músicos foram liberados pelos policiais, na verdade, uma versão sarda da dupla Stan Laurel e Oliver Hardy.

 

Fabusto Augábio

Nomes compostos são excelentes para reprimendas, tanto é que uma das frases que mais ouvi em minha vida foi: “Christiano Augusto, tira a mão daí!”.

O tecladista Fábio Augusto (nome artístico e de batismo), além de um querido e talentoso amigo, tem o coração do tamanho de um bumbo sinfônico. Tocamos juntos com Stuart Hamm, Peninha, tributo ao Taffo, Mauricio Gasperini, Rodrigo Santos, Milton Guedes, Leo Jaime, Ritchie, Paulo Ricardo... Sempre nos divertimos e nunca escutei um não dele. Os Augustos se dão bem.

Anos atrás, recém-chegado de Catanduva, interior de São Paulo, o Fábio Augusto estava tocando com a banda Rádio Táxi.

Hoje em dia o Fabião vai mais para o Japão do que eu à padaria, mas quando chegou à capital era tão puro e inocente que pedia X-salada “com queijo”. Em suma, uma presa fácil para o Wander Taffo, guitarrista do Rádio Táxi e experiente predador.

A banda tinha acabado de lançar um DVD e estava fazendo divulgação na TV. Faustão, Altas Horas, o circuito básico.

Iam tocar numa grande emissora.

O Gel Fernandes, baterista da banda tinha, para o azar do Fábio Augusto, uma amiga na emissora. O Gel pediu para ela enviar um e-mail para todos da banda, comunicando que não seria possível utilizar o nome Fábio Augusto na emissora, pois uma de suas estrelas era detentora do nome Augusto.

Ao ver o e-mail da emissora, o Fábio pirou.

— Como assim? É meu nome de batismo!

Foi dada a largada.

O Wander:

— Não podemos ter problemas com o jurídico da emissora, Fábio Augusto! Digo... Fábio. Eles são muito poderosos. Não vai dar para usarmos “Fábio Augusto”. Precisamos arrumar um outro nome pra você!

A banda sugeriu vários, um pior que o outro, inclusive terminando com “dos teclados”. Algo do tipo “Peludão dos teclados”. A coisa só piorava, assim como a qualidade do sono do Fábio, outrora Fábio Augusto.

Dias de trollagem profissional transcorreram, até o Wander propor:

— Já sei! Você vai se chamar Fabusto Augábio!

Até então, a opção menos ruim.

Começaram a chamar o inocente tecladista de Fabusto.

A trollagem com o pobre Fabusto Augábio durou semanas.

Tem gente que chama ele de Fabusto até hoje!

 

Avec batatinha frita 

Por Amilson Godoy

Tive o prazer de trabalhar nos anos de 1967 e 1968 com a grande Elis Regina, excursionando pelo Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai, Venezuela e tendo a honra de levar a música brasileira para o II Festival Midem de Cannes, o maior encontro mundial de empresas ligadas à música. Era a MPB chegando por cima à Europa.

Foi uma explosão de orgulho participar daquele momento tão importante, o que valeu um convite surpresa, após a nossa apresentação no Midem, para estarmos no Teatro Olympia de Paris. Tal convite foi oficializado dois meses depois, pelo grande empresário europeu, proprietário do Teatro Olympia, Bruno Coquatrix.

Elis Regina estava surgindo para o público europeu e nós, os meninos do Bossa Jazz Trio, junto com ela.

A nossa apresentação no Olympia foi maravilhosa, com brasileiros na plateia, facilmente detectáveis. E com toda essa responsabilidade, não podíamos deixar passar o toque de brasilidade nas relações.

O comediante que fazia o trabalho de jogo de cena, para a troca de cenário das apresentações, pediu para a Elis uma frase de efeito em português para usar em nossa apresentação. A primeira, de várias, foi: “Passarrrrinho que come pedra sabe o cu que tem!”, cirurgicamente encaixada em nossa apresentação. Descobríamos os brasileiros da plateia pelas gargalhadas. Um momento muito engraçado e que servia para aliviar a tensão.

Após nossa estreia, o Bruno Coquatrix, bastante simpático, agradável e muito contente com o sucesso da apresentação, nos levou para jantar e, como não podia deixar de ser, na entrada da refeição surgiram os maravilhosos queijos franceses e o não menos maravilhoso vinho francês. Em dado momento, o entusiasmado monsieur Coquatrix nos ofereceu um queijo vindo diretamente do “baú das raridades”. Pegou dois pedaços, um em cada mão, e ofereceu a mim e ao baterista José Roberto Sarsano, cheio de entusiasmo.

Batemos os olhos e detectamos nos buraquinhos do queijo uma porção de bichinhos se mexendo, pra lá e pra cá, pra lá e pra cá. Nos entreolhamos e titubeamos. Nosso anfitrião insistiu. Mange, mange! No momento em que pegamos nossa porção daquele queijo habitado, Bruno Coquatrix virou para o lado e comentou alguma coisa com a Elis. Eu e o Zé, como que ensaiados, começamos a fingir mastigar o queijo. Por sua vez, o fromage e sua fauna estavam discretamente escondidos em nossas mãos.

Mastigávamos e acenávamos a cabeça afirmativamente. Tomamos um gole de vinho e, sorrateiramente, dispensamos a iguaria embaixo da mesa. Demos muita risada depois.

Muitas lembranças tenho dessa temporada. Uma delas: quando o galã do cinema francês Pierre Barouh — um admirador sem igual da música brasileira —, acompanhado da sua mulher Anouk Aimée, estrela do filme Um Homem, uma Mulher — recém-exibido no Brasil e uma sensação mundial —, passou no hotel em que estávamos e nos levou para jantar no nosso dia de folga.

Além da tremedeira nas pernas de estar ao lado daquela atriz fantástica que a todos havia conquistado com sua participação no famoso filme, chegou um Rolls-Royce com o Pierre Barouh vestido de motorista. Ele nos colocou, eu e a Elis, no banco de trás e disse:

— Serei o motorista de vocês.

E lá fomos nós, como reis, com toda a mordomia e tendo como motorista e assistente Pierre Barouh e Anouk Aimée.

Saímos na noite, tomamos vinho e champanhe dos deuses, queijos e mais queijos, escargot (a Elis adorava escargot).

Ao final do jantar, o Pierre Barouh pagou a conta, que deve ter sido um caminhão da Brink’s.

Que alegria reinou naquelas horas! Foi incrível.

Que orgulho eu sentia por nós e pela nossa música, a responsabilidade de estarmos ali, representando o Brasil no ano de 1968, quando muita coisa estava mudando no mundo e nós, o Bossa Jazz Trio, jovens músicos brasileiros tocando vestidos com smoking, como embaixadores de nossa cultura artística.

Ainda assim, éramos meio moleques também. Certa noite fomos jantar e a Elis pediu um prato sofisticado, com um nome encrencado que não consegui entender. Ao chegar até mim, o garçom perguntou:

— E vou messiê, ques que vou vulê por manje? — Cheio de propriedade, respondi:

— Tout la meme chose, avec batatinha frita.

A Elis falou:

— O quê? Avec batatinha frita?

Teve uma crise de riso, com aquela gargalhada gostosa que só ela sabia dar, e que contagiou todo o restaurante.

— Avec batatinha frita? — repetia ela.

O valor arrecadado ajudará a cobrir os custos de gráfica (tiragem de 1.000 exemplares), revisão de texto, fotos, ilustrações, diagramação, design gráfico, envio e Rivotril.

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Edição: Christiano Rocha

Projeto gráfico e diagramação: Luiz Zonzini

Ilustrações: Claudia Azevedo

Revisão: Cris Dantas e Hebe Ester Lucas

Fotos: Luís Gomes

Foto (orelha): Alvaro Motta

Capa e quarta capa: Benjamim F. Cafalli

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